Cartas para Kevin: Feliz Aniversário

Uma imagem vale mais que mil palavras, é o que dizem por aí. Nunca acreditei nisso de verdade, mas, nesse caso, acho que se aplica. Eu poderia escrever mil palavras para você. Poderia dizer todos aqueles clichês que vêm com a data: “muitas felicidades, muitos anos de vida, que Deus te abençoe, que essa data se repita…”, mas na verdade é que eu decidi te dar algo diferente dessa vez.

Minhas palavras são a melhor parte de mim, disso você já está cansado de saber. Eu liguei o computador, abri o Word e tudo, juro, eu queria mesmo escrever pra você. Eu queria te dizer todas aquelas coisas bonitas que a gente diz pra quem se ama e queria colocar umas fotos bacanas também pra ilustrar o texto, mas daí eu me lembrei do melhor presente de aniversário que eu já ganhei na vida e decidi que era isso que eu queria dar nesse dia.

Tá curioso pra ver? Não precisa, tá aqui ó:

BDAY

 

A qualidade tá horrível, eu sei, foi de propósito. Eu fiz isso tudo só pra te dizer que muito mais importante que todos os textos do mundo é tirar cinco minutos pra fazer um desenho bobo de aniversário que só quer dizer, amo você.

 

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Feliz aniversário docinho, te amo.

 

Maira

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Simpathy for the Devil

Simpathy for the Devil

Ele é lindo, alto, elegante, rico, engraçado, inteligente, bom de cama e de papo. Ah, tem mais uma coisinha: ele também é o diabo. Não que isso faça alguma diferença. Está tão difícil encontrar um homem assim hoje em dia que muitas diriam que ser o senhor do inferno, responsável por condenar almas aflitas ao martírio eterno é apenas um mero detalhe.

Ele tem chifres? Sim, e daí? Ficar apontado a deformidade física das pessoas é preconceito. Dá processo, sabia? Ele se rebelou contra Deus e foi expulso do paraíso? Verdade, mas quem nunca teve problemas com os pais que atire a primeira pedra, você não assiste Casos de Família? Ele é o oposto de tudo o que bom e de tudo o que prega a religião? É, mas você já ouviu falar em liberdade de credo? Livre-arbítrio existe pra isso!

Pois é, hoje em dia até para defender o diabo arranjamos desculpas, mas pra falar a verdade, ao ver a personificação de Lúcifer representada na série homônima ao personagem, com seu sotaque britânico, tiradas espirituosas e ternos de três peças impecáveis, bate até uma vontadezinha de ir para o inferno, que Deus me perdoe. O diabo definitivamente não é tão feio como se pinta.

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Comecei a assistir a série Lúcifer porque se tratava de um personagem criado por um de meus autores favoritos, o inglês Neil Gaiman, e também porque segundo os melhores sites especializados na área, era a série mais assistida de todo o Brasil na época. “O que pode dar errado?”, pensei, e, sem muitas esperanças, cliquei no play. Três horas depois já tinha assistido quatro episódios e estava dividida entre a difícil escolha de preparar o jantar ou assistir a um quinto antes de cair na cama. No fim das contas Lúcifer venceu e eu acabei indo dormir com fome.

Na manhã seguinte acordei cedo e fui ao mercado munir os armários de petiscos e gordices que, se não contribuíssem para a eterna dieta que sempre começa na segunda-feira, ao menos poupariam o tempo perdido na cozinha me deixando livre para ficar horas grudada na frente da telinha com meu novo amor platônico: o pai de todas as mentiras.

Mas o que poderia ter de tão atraente e inovador na história de um anjo caído contada há milhares de anos que já saiu até mesmo na Bíblia? Bom, para começo de conversa, assim como na HQ em que ela é inspirada, a série começa com um Lúcifer cansado de seu trabalho e aborrecido com o inferno, que decide largar tudo e começar uma nova vida como dono de uma boate em Los Angeles. Já parece interessante, não é verdade?

Na série, que é Americana, ele acaba virando consultor especial da polícia e ajuda a resolver os mais diversos crimes (como em toda série Americana). Como na HQ, o personagem tem diversos poderes, mas talvez o mais interessante de todos seja o poder de fazer as pessoas revelarem seus desejos mais profundos, quase como se estivessem confessando um crime. Conhecer o desejo de cada ser humano no planeta com certeza deixa o trabalho de qualquer detetive muito mais simples.

Entre anjos e demônios, vaivéns amorosos e crimes insolúveis, a série cria um clima interessante que só aumenta a curiosidade pelo personagem principal, que lá pelas tantas começa a ser afetado pelo nosso mundo e se descobre mais humano do que imaginava (ou, quem sabe, mais anjo?). Mas afinal de contas, quem é Lúcifer?

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Representado como playboy e rebelde com causa, Lúcifer Morningstar é a personificação dos desejos: festas, mulheres lindíssimas, drogas, música e muito dinheiro rodeiam a vida do personagem que pode ser intitulado de tudo, excêntrico, exagerado, arrogante, irresponsável, infantil, egocêntrico… mas, e quanto a mal? Mal ele não é. Aliás, sempre que alguém o culpa de ser maldoso ou inspirar a maldade ele se revolta. Diz que sua função é punir o mal, mas ele não tem nada a ver com o mal que nós infringimos a nós mesmos.

Lúcifer é só um garoto mimado, de mal com o pai, que quer apenas curtir a vida, ou no seu caso a eternidade, e gozar dos prazeres que o mundo tem para oferecer. Satanismo? Ele não pediu por isso. Culto e adoração com sacrifícios? Ele despreza. E quanto às tragédias, guerras e destruição? Não têm nada a ver com ele. Segundo o próprio, culpá-lo é a saída mais fácil que nós humanos encontramos para justificar o que há de pior no mundo porque a alternativa seria admitir que no fundo a culpa é toda nossa.

A ideia de inferno que a série traz também é interessante ao sugerir que os portões estão sempre abertos, mas é a nossa culpa que nos prende lá dentro. Nós só somos punidos porque acreditamos que devemos. Assim, nos condenamos a um looping eterno de desespero, alimentado pelos nossos mais profundos arrependimentos. Essa ideia de inferno é uma das mais assustadoras que pode existir. Lidar com demônios horrendos, tortura e danação eterna não é nada comparado a imparcialidade de uma consciência pesada. A nossa tortura vem de dentro, não de fora. Sabe aquele seu segredinho escondido? Aquilo que você deixa guardado a sete chaves? Aquela culpa que sente de algo que fez, que jamais devia ter feito, ou que deixou e fazer? É exatamente isso que vai te atormentar no inferno. O diabo realmente mora nos detalhes.

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A série traça um perfil psicológico do personagem principal que nos faz refletir muito sobre nós mesmos e nossas relações pessoais. E se fossemos nós que não conseguíssemos escapar dos olhos de nossos pais? E se, a cada passo, desconfiássemos que eles estão por trás de tudo o que acontece em nossas vidas? O que Lúcifer mais preza é o desejo, ele incita o desejo, sua existência é definida pelo desejo, afinal, foi o desejo de ser como Deus o responsável por sua queda do paraíso. Como aceitar, então, que um ser superior a ele, e ainda por cima seu pai, possa influenciar tão intimamente nos seus próprios?

Assim como muitos de nós, Lúcifer não acredita que Deus saiba o que é melhor para ele. Ele se revolta por não poder ser dono de deu próprio destino, e tenta, a todo custo, provar que tem o direito de fazer suas escolhas. Nos quadrinhos, o volume final da saga de Lúcifer mostra um encontro dele com Deus, onde este conta para o filho a lenda do Rei Macaco. Na história, o Rei Macaco vai visitar Buda em seu templo e, na tentativa de se provar mais poderoso que ele, diz que é capaz de pular distâncias inimagináveis. Para provar, pula até o fim do universo, onde encontra quatro grandes pilares que sustentam todo o firmamento. O macaco, então, escreve seu nome em um dos pilares para atestar que ali esteve e pula de volta para o templo do Buda. Chegando lá, ele se gaba, desafiando a divindade a provar que é tão poderosa quanto ele. Como resposta, o Buda levanta a mão e mostra quatro dedos ao Rei Macaco, que vê ali, gravado em um deles, seu nome, escrito com sua própria caligrafia.

A fábula retratada na HQ é uma analogia a história de Lúcifer que busca provar-se mais poderoso que Deus. Na série, até agora, a sua arrogância é mais comedida e até certo ponto cômica. Ao mostrar o lado mortal de Lúcifer tenta-se desassociar sua imagem do mal, dando um tom mais humano a sua existência que de certa forma suscita identificação e até mesmo pena. Por mais estranho que pareça, a versão cinematográfica de Lúcifer busca na Bíblia, e na etimologia do seu próprio nome, um motivo para humanizar o personagem: retratá-lo como o iluminado, o portador da luz, a estrela da manhã. A tática funciona? Até certo ponto. Porém, não se pode ignorar que o excesso de luz é igual ao excesso de escuridão: nos impede de ver a realidade.

 

O som de suas asas

O som de suas asas

Você vai morrer. Eu também. Aliás, todo mundo vai um dia, isso não é novidade pra ninguém. Você pode se engasgar com um osso de frango no almoço, escorregar em uma casca de banana na calçada, tropeçar no cadarço desamarrado e cair na frente de um carro ou ser atingido, bem na cabeça, por um piano caindo do décimo oitavo andar de um prédio. A vida tem dessas surpresas inesperadas que ficariam bem melhor em um desenho animado, acontecendo com o pobre do coiote em uma de suas frustradas tentativas de capturar o papa-léguas. Só que não é apenas nos desenhos animados que essas coisas acontecem, afinal tudo o que é vivo morre e ninguém está livre de ser esmagado por um piano despencando do um prédio. A morte é ridícula.

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Mas e quando não há piano, nem casca de banana, nem cadarço desamarrado, nem osso de frango? E quando ao invés de rápida e silenciosa a morte chega de mansinho e vai se instalando como se estivesse em casa? Quando ao invés de um acaso macabro temos que encarar a dura realidade de uma doença longa e dolorosa? É nessas horas que desejamos desesperadamente aquele osso de frango entalado na garganta. Morrer nem sempre é tão fácil quanto parece. Pior ainda é quando a doença é em um ente querido. Morremos um pouquinho com a pessoa a cada dia. Passamos a conviver com a morte e isso assusta. Não precisamos esperar que ela chegue porque, de fato, ela já está lá, nos observando do seu canto. Ela desperta quando abrimos os olhos, segura a porta para que passemos toda a manhã, apaga as luzes do quarto quando saímos, senta conosco à mesa para jantar. Ela assiste a novela ao nosso lado, recolhe as roupas no varal, leva o lixo para fora, passeia com o cachorro, e, à noite, encosta-se na cabeceira da cama, esperando. No outro dia o ritual se repete, e assim a morte vira rotina, quase como uma velha amiga. A morte é paciente.

Podemos sair para fazer compras, ir ao cinema, à academia, acampar no fim de semana, à festa da firma ou à consulta com o dentista, a morte está sempre lá. Persistente, ela segue firme ao nosso lado, passo a passo, e insiste em nos fazer companhia mesmo sabendo que não é bem-vinda. “Você não deveria estar em outro lugar!?”, indagamos em desespero. “Eu estou”, responde ela calmamente, “Mas estou aqui também. Eu sempre estou onde devo estar.”, e se senta ao nosso lado, na sala de espera do consultório para ler uma revista qualquer abandonada sobre a mesa. A morte é teimosa.

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Passamos a vida correndo dela, nos escondendo, nos esquivando, evitando o assunto como se fosse vizinho chato no domingo de manhã querendo algo emprestado. Pensamos que se nos esquecermos da morte, a morte se esquecerá de nós. Ledo engano. A dura verdade é que a única certeza que temos na vida é que ela chega, cedo ou tarde. Seja pela casca de banana, pelo cadarço desamarrado ou por uma longa doença. Seja agora, daqui a dez minutos, cinco meses ou quarenta anos. Só ela sabe quando é a hora, e apesar de tudo, verdade seja dita: a morte nunca se atrasa.

Os mais revoltados podem culpá-la, blasfemar contra ela, maldizê-la e apedrejá-la, mas no fundo ela espera por eles também, não importa o quanto corram. No fim do dia é sempre ela quem vai estar à espera. E no final de tudo, quando nada mais restar, ela ainda estará lá. A morte é sempre o nosso último abraço antes de partir para a próxima jornada. É ela quem nos acolhe nos braços, nos olha nos olhos, nos segura apertado e diz ao pé do ouvido: “esperei uma vida inteira por você, meu filho, agora você está livre para seguir o seu caminho.”. E é só então que nós a vemos como ela realmente é. Nada de capa preta, foice pontuda e cara de caveira. O sorriso da morte é doce e seu colo é quente. Ela traz nos olhos o peso de quem carrega as dores do mundo desde o início de tudo e no rosto o ar de cansaço de alguém que passa a eternidade sendo incompreendida. Tudo o que é vivo teme a morte, mas quando se está do outro lado as primeiras palavras são sempre as mesmas: “muito obrigado”. Por quê? Ora, só quando se morre é possível compreender a morte. Ela não é a ceifadora macabra, implacável e inescrupulosa que chega para dar fim a nossa vida, isso são apenas projeções de ideias. A morte mesmo é o oposto do profano. A morte põe fim à dor, ao medo e ao sofrimento. A morte é, acima de tudo, misericordiosa.

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Milagre é acreditar

Aos 47 do segundo tempo o jogo empata. As coisas costumam ser assim no futebol e na vida. Às vezes, a gente acha que não vai dar mais, que está tudo perdido, que o melhor que temos a fazer é virar as costas e voltar pra casa e é então que a magia acontece. Um lance, uma enfiada de bola, um chute, um descuido do adversário e é aí que Deus ouve as nossas preces. A rede balança, soltamos o grito, liberamos as lágrimas, extravasamos com pulos e abraços, mas é também aí que a coisa complica, afinal, nenhuma vitória que valha à pena é fácil. O lance certeiro apenas nos deixa mais próximos do nosso objetivo, mas o final da partida está longe ainda.

Com o coração na mão e o nó na garganta vamos para os pênaltis. No campo, de braços dados os jogadores representam uma nação. Ali, com eles, estamos todos nós, em pensamento, desejo, oração. Nos céus, São Jorge, guerreiro, ajuda como pode. No campo, São Cássio, goleiro, carrega nossos sonhos nas mãos. Um a um os jogadores posicionam-se para bater e parece que até mesmo o tempo para pra observar o que está acontecendo. Perna esquerda direto no meio da rede, perna direita no ninho da coruja, uma bomba explode no canto esquerdo, paradinha e, de repente, o goleiro. A arquibancada explode, explode a euforia, explode coração. Mas a partida está ganha? Ainda não.

Como em tudo na vida dependemos do erro do adversário, que às vezes, mesmo com o jogo ganho entrega a partida e depois, na entrevista, vem com aquele “Hoje não era o meu dia”. O coração bate apertado, o terço treme na mão, os corajosos olham pro campo, os covardes olham pro chão. A bola rola, pega na ponta da luva, estoura na trave e cai pra fora. Aquilo que há quinze minutos parecia impossível se torna realidade: estamos na final do campeonato. Mesmo sabendo que um desafio maior ainda nos aguarda na esquina, aqui e agora somos os melhores. Não vencemos apenas o adversário, vencemos as probabilidades, vencemos o medo, vencemos o tempo, vencemos a nós mesmos.

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Somos a prova: a vitória é recompensa daquele que não desiste, daquele que enfrenta o oponente frente à frente, daquele que até o último segundo continua lutando, continua acreditando, continua dando o seu melhor porque às vezes os milagres acontecem quando já estamos quase desistindo deles, na vida e no futebol. Às vezes Deus espera até os 47 do segundo tempo que é pra nos ensinar a importância de acreditar nele e na gente, afinal, Ele sempre cumpre o que promete e milagre não é empatar aos 47 e vencer nos pênaltis, milagre mesmo é acreditar até o apito final que isso é possível.

 

Bem me quer/Mal me quer

LUV

Você lembra aquela vez que eu disse que te amaria apesar de tudo?

Eu quis dizer de tudo mesmo. Sério.

E isso inclui essa sua mania ridícula de dormir com meias e cueca, porque se quer saber a verdade, isso realmente me irrita, mas eu não me importo.

Acho até que eu já me acostumei , sabe, em  não me importar.

Depois de um tempo pareceu a opção mais fácil, a mais certa, a que doía menos.

E eu parei de me importar com seu cabelo bagunçado, com o tênis sujo, o casaco furado e as unhas grandes demais.

E eu passei a não me importar com a falta de cumplicidade, com os risos de desdém, o olhar de deboche e as palavras cruéis.

Como foi que chegamos a esse ponto? Quando foi que não se importar tornou-se uma opção tão viável tendo em vista que a outra seria… bem, deixa pra lá. A única coisa que sei é que em meio a todo esse caos emocional que virou as nossas vidas, de vez em quando eu consigo perceber o esboço de um sorriso se formando no canto do seu rosto. De vez em quando eu vejo o relance de um olhar doce e cúmplice me fitando, e nesses momentos me lembro de tudo que eu já amei em você.

Esse seu jeito assim, desligado, distraído, impaciente. Essa sua mania de roer as unhas quando está preocupado, o modo como você dorme quietinho, encolhido. Seu sorriso lindo, seu abraço apertado, seu jeito de dizer o meu nome. Ah, como eu adoro ouvir meu nome saindo dos seus lábios. Você se lembra como a gente costumava passar o tempo todo grudados? Lembra que virávamos a noite assistindo filmes de terror e acordávamos dividindo o mesmo espanto, um nos braços do outro? Pois é, agora parece que isso tudo foi há muito tempo atrás.

Hoje, a única coisa que eu sei é que pouco importa o que nos tornamos. Se a paixão morreu? Talvez, mas, sinceramente, nem estou ligando. Não importa o quanto nos machucamos, o quando o caminho foi tortuoso, o quanto ainda temos que aprender, um com o outro, estamos juntos nessa, e apesar de tudo, eu ainda te amo.

Não fode, saudade!

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Se existe uma verdade que pouca gente sabe é que a saudade tem um irmão mais velho que se chama amor. Desde pequenos os dois têm um pacto: um nunca andaria sem o outro. Porém, um belo dia ao despertar a saudade percebeu que o amor não estava ao seu lado. Para pregar uma peça na irmã ele havia se escondido dentro de um coração leviano mas, ludibriado pela Paixão, sua prima bastarda, acabou se perdendo e não voltou para casa. Desde então, a saudade e o amor nunca mais se encontraram. Seguindo seus rastros ela só chega quando ele já se foi, e, desesperada em busca da sua cara metade, revira todos os cantos de corações apaixonados à procura de seu amor

Uma mulher feita de palavras

 

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Às vezes as palavras trasbordavam dela. 

Não era raro vê-la por aí vomitando frases inacabadas e pensamentos repentinos a torto e direito. Ela era uma metralhadora de comentários, afirmações, interjeições, piadinhas e argumentos. Era uma mulher feita de palavras.

Tal como Obelix, quando pequena, caiu de cara em um grande prato de sopa de letrinhas e aspirou todas elas para dentro de si. Em consequência disso, com um ano já falava, aos 5 escrevia e aos 6 descobriu o poder que têm as palavras. E, desde então, a menina se perdeu nos caminhos da escrita. Na escola, aprendeu que juntando L com A se forma LÁ, mas como lá é muito longe ela não quis partir, decidiu ficar. Assim descobriu que as palavras podem levar aos lugares mais distantes. De volta ao caderno, juntou M com A e viu que mesmo uma coisa muito boa pode ser MÁ. Com medo, acrescentou outra letra  no papel e deitou-se no colo da MÃE. As palavras podem ser ruins, mas confortam. Com lápis vermelho juntou o S com o O e sentiu-se SÓ. E na solidão da menina o vento tocou seus cabelos e a fez olhar para cima. Sorrindo, escreveu um L ao lado do O e ganhou um SOL, porque a solidão não impede ninguém de brilhar.

E assim, conhecendo as palavras cresceu a menina. Descobriu que a DOR desperta a DÓ e que a dó, por sua vez, incita o desejo de DOAR. Descobriu que muitas pessoas quando encontram um PAR, apagam o r e ficam em PAZ, e que outras fazem qualquer coisa para conseguir o que querem e por fim descobrem que é dentro de SI que se esconde o segredo para conquistar um SIM. Com o tempo, a menina virou mulher e passou a entender o mundo melhor. As palavras já haviam se tornado velhas amigas e ao invés de escrever ela começou a sentir a necessidade de ser lida. E quanto mais era lida, mais a mulher se esquecia da menina.

Escrevia para preencher os vazios da vida, mas viu que há certos vazios tão profundos que engolem todas as palavras do mundo. Foi então que, no meio do caos, ela o viu, entre traços e borrões e palavras que não precisavam ser ditas. E no instante em que o viu ela percebeu que era ele a inspiração de tudo o que ela já havia escrito e o que mais fosse escrever um dia. Em meio a esse mar de sentimentos, a mulher-menina desatou o NÓ que havia entre eles e juntos descobriram o NÓS.

E a menina ficou sem palavras.